Sobre Estradas, por Rafael Verdasca

Sobre Estradas

O Rafa Verdasca a gente conhece desde antes do Estúdio existir. Ele é uma dessas pessoas que realmente te faz pensar as coisas, saca? Mas pensar mesmo.
Só quem conhece o cara pessoalmente entende  isso 100%

Ele viu esse Estúdio nascer. Acreditou e ajudou a construir. É da casa.
Nada mais natural que fosse dele a primeira exposição que montamos em nosso espaço. Trouxe pra dentro a “Sobre Estradas”.

Historiador por necessidade, aprendeu a recortar o tempo; focar conforme
o contexto e olhar por todas perspectivas presentes. Suas imagens
traduzem o ofício do historiador e passam a contar suas próprias histórias. Com uma
característica bem brasileira de miscigenação.

Nas palavras do amigo Glauvo Vianas:

“Está tudo na paciência do olhar. por de trás do corpo parrudo/magérrimo de lente objetiva ou fixa suspenso, um arcabouço empilhado com folhetins, livros, exposições e caminhadas absorvendo revelações chapadas sob camadas e camadas de mono[cromia] e um breve discurso elaborado, não pelo autor, mas por um pensamento de outrém atrás da imaginação preocupada em descobrir onde moram os momentos permitidos unicamente a/o felizarda/o com a câmera na mão.

Cada instantâneo exposto, aqui, representa a materialização do ponto de fuga que a íris do fotógrafo teve real conhecimento e apreensão. conjecturas abrangem-se milhões multiplicadas por bilhões, e serão meros fragmentos de uma composição imagética sobreposta com talvez negativos sem combinação alguma.

Caminhar sobre as estradas cooptadas a estas paredes é ser passageiro de um motorista que tem o olhar dispersamente clínico e apurado de um passageiro; enquanto visualiza o significado pessoal de uma sensação não experimentada pela distância temporal do objeto de si e desconstrói o próprio expectadorismo diante da fotografia na tentativa esmaecente de encontrar o fio de sentimento alastrado entre o poste, a curva de terra batida rodeada pelas sombras criadas das árvores, um pássaro eletrificadamente quieto.

Nesta trajetória não existe o correto e muito menos o incorreto; há somente a incerteza categórica da intenção: a impulsividade característica da apropriação do espaço-tempo-clima-veredas-espetáculo coexistindo na inspiração obstruindo o ar e a pressão do indicador sobre o disparador.

Na humilde –despida de conceitos, registros, preferências pessoais e autorais– opinião deste amigo, admirador e convidado a conceber uma perspectiva de tratamento quanto às estradas, é humamente improvável resgatar o instante que deflagrou quaisquer destas 12 fotografias, porém, tendo em mente os dois primeiros versos d’uma música do Cartola: “deixe-me ir / preciso andar” será empiricamente possível construir a sua relação de fotógrafo sendo o passageiro jornando sobre estradas.”